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Desde que a minha memória alcança (e alcança já cerca de 70 anos da história de S. Pedro do Sul) nesta terra nunca aconteceu nada de parecido com o que ocorreu desde o dia 22 de Maio passado até ao dia 13 de Junho seguinte. Foram três semanas que podem ter sido fundacionais de um novo tempo cultural de Lafões.

Expliquemo-nos: até aqui, do ponto de vista  da cultura, S. Pedro do Sul (e Lafões um pouco também) tem vivido dos sobressaltos do Cénico  que, desde 1971 tem vindo a quebrar a tal paz podre, de vez em quando. Para além do Cénico, apenas os “Cantares de Manhouce” e a Isabel Silvestre (estou a lembra-me de um espectáculo notável com a participação do Cénico, O Canto da Terra”[1], para além de outros nas escadas do Convento) e o grupo “Alafum” com os seus cantos tradicionais. Uma ou outra vez, também o “ACERT-Trigo Limpo” de Tondela nos visitou com a sua habitual qualidade profissional. Fora disto tem sido o deserto[2] , sem desprimor para a qualidade amadora do grupo “Vozes” que pouco se mostra e da “Tocata” que, se não desapareceu, parece invernar.

Ora acontece que na última semana de Maio (passado) o Cénico volta a encontrar-se com o seu espaço natural: o Cine Teatro, aí apresentando por duas vezes o seu último espectáculo, “O Bem Amado” de Dias Gomes, perante várias centenas de pessoas (nas duas representações); logo de seguidas, desde 31 de Março a 7 de Junho, surge do fundo da imaginação criativa do Prof. Rogério Duarte e no meio da paisagem edílica do Vouga, no Lenteiro do Rio, a “Ilha das Letras”. Foi um desfilar impressionante de escritores, artistas e intelectuais, desde Alice Vieira ao poeta e declamador José Fanha, passando pelo contador de estórias, António Fontinha e pelo mestre, Prof. Walter Oswald,  que durante cinco dias conversaram com centenas (talvez mais que um milhar) de jovens estudantes e seus professores das várias escolas de S. Pedro do Sul.

Para além destes encontros, particularmente virados para a juventude, houve duas tertúlias mais viradas para adultos: uma comigo e com o pintor/gravador David de Almeida e outra com o fotógrafo, Homem Cardoso, tendo nesta faltado a Isabel Silvestre por razões de saúde. Nestas tertúlias participaram também mais que duas centenas de pessoas.

Aproveitando a primeira destas tertúlias, fez-se o lançamento do meu último livro “A CAMINHO DO NUNCA? ou Minha Loucura outros que me a tomem...”, estórias na história dos anos sessenta (com a emigração por salto, lutas académicas e outros acontecimentos reais e recreados daquele tempo de ousar[3]; foi mais uma surpresa e um acrescento, tendo o livro sido logo adquirido logo por mais de meia centena de pessoas!

No seguimento de toda esta agitação cultural, no dia 13 de Junho, o Cénico juvenil apresentou o seu espectáculo de estreia, “As Preciosas Ridículas” de Molière, 1ª encenação da jovem. Daniela Madanelo que nasceu para o Teatro no Cénico e, agora, depois de licenciada em Teatro, inicia a sua actividade na sua terra natal e no espaço artístico que a viu nascer.

Acontece que, no dia anterior e nesse mesmo dia, e sem qualquer ligação com o tal terramoto cultural, mas apenas por razões de coincidência de calendário, foi a festa popular da elevação da Vila a Cidade, com o aproveitamento partidário que transformou o evento em grande excursão a Lisboa (dois autocarros) e em romaria no Solar da Lapa, com sardinhas assadas e porco na brasa e boa pinga.  Tudo de borla e para quem quis ir.

Acho bem a alegria popular da elevação da Vila à Cidade, só que essa alegria tem de radicar mais fundo. Tem de radicar na revolução cultural que o tal terramoto parece ter anunciado,  já que só a verdadeira cultura pode servir de base à autêntica  cidadania.

Se assim não for, toda aquela agitação popular deixará um trago amargo de “preciosas ridículas” que o Cénico juvenil, premonitoriamente vergastou.

 

            Jaime Gralheiro  



[1] - que ficou guardado nos arquivos da TVI.

[2] - Devo aqui referir que, de passagem, ouvi num “25 de Abril” as vozes e os sons jovens, interventivos e afinados do grupo “Vozes da Terra” de Vouzela que muito me agradou.

[3] - Sessões idênticas estão já marcadas para Aveiro, Coimbra, Viseu, Vouzela e Lisboa. Destas sessões falarei com outros vagares e em outros locais e tempos.

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